20.8.08

oração dos que são fracos o suficiente para ter a coragem de viver

r***** disse que ia embora, eu achei que era só mais uma piada - em nosso círculo há tantas dessas -, mas pelo visto era coisa séria, era sério o suficiente para sua mãe o expulsar de casa depois de uma vida de bebedeiras e escapadas da escola - uma vida que ajudei a viver -, para longe, mandado rumo a uma guerra em que sofreria todos os danos, mas nem mesmo lhe daria o direito a uma vaga num hospital de veteranos,
e agora eu me lembro daquelas noites
aquelas noites doidas e cheias de álcool em que nós dois não tínhamos rumo e só a noite era a nossa estrada,
passávamos de cidade a cidade como de uma página a outra, de destilado a fermentado como de uma loira para uma morena, esquecíamos a dor interna de sermos fracassados, porque já não me sentia um fracassado quando olhava ao meu lado e via que tinha alguém que compartilhava meu fracasso - e, sempre, a minha sede de glória
glória a r***** que me fez viver, glória ao espírito santo que permeiou e abençoou aqueles dias
glória àquela noite em que fui encontrar minha garota na av. paulista mas a chuva e todas essas desgraças nos fez terminar enchendo a cara de vodka tomada de um gole só, para depois viajarmos bêbados e ainda termos tempo para ficar mais bêbados e invadir um show de rock, e eu me aventurar como cantor por duas músicas para depois ser chutado do palco, ir dormir pouco depois de encontrar velhinhos no meio da madrugada que cantaram e tocaram beatles comigo,
e essas coisas já não acontecem mais agora que eu tenho um emprego e uma vida organizada e essas merdas todas
e saber que não vou ter a chance de poder ressuscitar um sentimento que não sabia possuir até agora,
não mais se embriagar doce e violentamente para depois cuspir conhaque em letras de leminski,
perder isso aos poucos me faz pensar no quanto que vivo apenas por viver,
sem lembrar do que já se foi, o que se foi e continua indo sem que eu nem mesmo note, vai se perdendo como uma música velha, vai se esgotando,
e o que antes eu fui já não sou mais, e o que antes eu tinha como riqueza agora me serve apenas como sonho,
já não sei mais o quanto de mim ainda resta, que resto de mim ainda posso buscar,
glória a mim mesmo que vivi dias de glória
glória a mim mesmo e ao r*****
glória eterna a nós que vivemos o infinito do copo de vodka
que nos embriagamos para lembrar quem somos
glória ao espírito santo,
amém.

11.8.08

capitulosetismo encharcado de cafeína e saudades

um tanto como qualquer mate que possa por via das dúvidas lhe subir à cabeça - e o café faria surtir o mesmo efeito - por um instante fico momentaneamente embriagado com esse seu corpo que se derrama sobre esse chão de azulejos brancos, e agora que estamos a sós depois de tantas noites em que procuramos um ao outro nos objetos que decoram nossos quartos, agora que enfim o sonho que é projetado no cinema dos meus olhos toda vez que os fecho e penso em você, agora eu já não sei o que fazer senão poder admirar esses seus olhos e esse seu nariz, essa tua boca grande - e basta-me tocá-la com os lábios para poder sentir pela carne o que há tanto meu olhar já anunciava -, e olhar um pouco mais para você quando me cansar de te aproveitar, mudar de posição até encontrar o ângulo perfeito para poder te redesenhar na minha cabeça - é impossível, é um desenho que não pode ser concluído jamais; quando penso que enfim posso te imaginar aos detalhes, me esqueço de um canto do seu rosto e preciso mais uma vez te contemplar.